Hoje eu quero ratificar o que eu venho pensando há algum tempo: nós aprendemos coisas em todos os lugares. Sendo assim, vou compartilhar com vocês o que aconteceu comigo quando fui numa barbearia aqui do bairro. Adianto que foi um dos momentos mais intensos que já vivi. Estão prontos? (Ninguém me perguntou isso antes de eu ir pra lá...)
Certo. Eu estava com a barba bem grande, a maior que eu já tive na vida (e olhe que não era tão imensa assim, estava apensas grande) e eu queria ajeitar, aparar e fazer algo que eu ainda não tinha feito antes porque não tinha barba grande. Vou especular a idade dos envolvidos porque acho que vai ser importante para uma possível conclusão...
O salão é pequeno, só o senhor (que eu não lembro mais o nome), que é o dono, trabalha lá. Ele deve ter seus 60 - 65 anos. Ele estava fazendo a barba de um homem (que deveria ter uns 35 - 40 anos) enquanto conversava com outro senhor (49 anos, ele disse), que seria o próximo a ser atendido. Então eu cheguei, e eu seria o segundo a ser atendido. Eles conversavam sobre várias coisas: trabalho, amigos, mulheres, traição (em um momento, os dois clientes concordaram que a traição pode acontecer, mas que ela deve ser, pelo menos, escondida bem direitinho). Então eles começaram a falar da morte. Muitos amigos estavam mortos. Alguns que deveriam estar mortos não estavam. Falaram de separação. O senhor que aguardava disse que estava casado há 30 anos, mas havia 8 anos que ele não falava direito com sua mulher. Então, há 8 meses eles se separaram de vez. Ele já estava namorando com outra mulher. Estava feliz de novo. Ele disse.
O barbeiro não falava muito. Deixava os dois conversando. O que estava tendo a barba feita terminou o serviço e foi embora. O senho foi para o lugar dele. Então uma senhora (69 anos, ela falou) chegou com seu filho (29 anos, ela falou também). O menino tem síndrome de down. Ela começou a conversar com o barbeiro. Durante a conversa ela falou que pegou o menino com 3 meses porque a mãe dele não queria ao saber que ele tinha síndrome de down. Segundo ela, a mãe do menino iria jogá-lo fora, tratava o bebê muito mal e então ela resolveu criá-lo. Apesar de não gostar da mãe biológica do menino, a senhora confessou que a ajudou uma vez, quando a moça estava doente e não tinha dinheiro para comprar remédio. O menino não falava mais, raramente cochichava. Elas disseram que os médicos concluíram que ele tinha muita dificuldade de aprendizado. Logo depois começaram a falar de morte de novo.
O barbeiro disse que viu seu filho morto dentro do carro, em um acidente. Que tirou pedaços do cérebro do rosto dele e viu o braço do rapaz quebrado em dois lugares. Que soube, antes de ver a cena toda, quando foram contar que seu filho sofrera um acidente, que o menino estava morto. O senhor que estava tendo a barba feita agora disse que sua mãe estava com Alzheimer. Que não estava lembrando de mais nada, mas que gostava de tomar uma cerveja no fim do ano. A senhora disse que seu esposo estava morto há 15 anos, que superou a morte dele e que entende que logo será a vez dela. Ela disse isso para seus filhos. Ela acha que eles estão preocupados com a chegada da morte pra ela e ficam fiscalizando o que ela come ou deixa de comer. Ela disse que às vezes come o que não pode, porque não vai viver sem aproveitar as coisas que ela gosta.
Os únicos calados era o menino, que esperava para cortar o cabelo, e eu, que esperava para fazer a barba. Durante toda a conversa ficamos em nosso mundo, ouvindo tudo. Às vezes a gente ria. Às vezes a gente só baixava a cabeça. Durante toda a conversa eu tive vontade de chorar em varias partes. Eu estava ali entre pessoas que já viveram muito. Que já presenciaram a morte de perto em várias ocasiões. Pensei em como a gente fica perto de várias pessoas e não sabe nada sobre elas. E que em uma espera pra fazer a barba a vida passasse por tantas fases enquanto eu tentava entender aquilo tudo. Eu não entendi. Parei de pensar porque, caso contrário, iria explodir ali mesmo. E, apesar de tudo, eles conseguiam falar das coisas boas que estavam acontecendo agora na vida deles. A senhora parecia feliz, disse que amava seu filho e que foi um presente de Deus. O menino também parecia bem feliz. Bom, foi muita informação pra um dia só na minha mente.
Eu cheguei em casa. Não gostei muito do resultado da minha barba. Tava muito arrumada. E eu gosto dela bagunçada. Tirei a barba inteira. Me vi diferente no espelho. Fiquei meio esquisito. E achei bom ter tirado a barba toda. Não quero ficar refém da aparência de ter que ficar cuidando da barba pra sempre. De qualquer forma vou deixá-la crescer de novo :)